Entenda por que porcos são a espécie considerada mais viável para transplante em humanos

  • 21/04/2026
(Foto: Reprodução)
Entenda por que porcos são a espécie considerada mais viável para transplante em humanos A técnica de xenotransplante — a transferência de órgãos e tecidos entre espécies diferentes — deu um passo importante no Brasil após o nascimento de Boreal, o primeiro porco clonado no país. O suíno nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ/APTA), em Piracicaba (SP). ➡️ Apesar de não ser o animal mais parecido fisicamente com os seres humanos e estar distante na cadeia evolutiva se comparado a primatas, atualmente, o porco é considerado a espécie mais promissora para o xenotransplante. Tanto que o suíno foi o escolhido para um xenotransplante de coração em 2023, quando um veterano da marinha dos Estados Unidos (EUA) que sofria de insuficiência cardíaca passou pela cirurgia na Universidade de Medicina de Maryland. Um ano depois, um paciente recebeu o rim de um porco em uma cirurgia realizada em Boston. Em 2021, uma equipe de Nova York transplantou um rim suíno em uma pessoa com morte cerebral. Biólogo geneticista da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores da pesquisa que clonou o porquinho Boreal, Luciano Brito diz que a escolha pela espécie ocorre por semelhanças anatômicas e fisiológicas com os seres humanos, além da facilidade de manejo. "O suíno tem vantagens no peso e nas medidas dos órgãos, uma semelhança bastante grande, anatômica e fisiológica dos órgãos também. O suíno é uma espécie que reproduz muito bem e, em razão de ser já domesticado há muito tempo, é fácil de criar. É um animal dócil e fácil de criar em laboratório", explicou o pesquisador. Médico brasileiro lidera primeiro transplante de rim suíno geneticamente modificado Arte/g1 A escolha do porco: o quanto somos semelhantes? De acordo com Simone Raimundo, pesquisadora do Instituto de Zootecnia (IZ) da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), que atua diretamente no estudo, o suíno é um animal que possui uma série de compatibilidades biológicas e físicas com seres humanos. As principais semelhanças apontadas são: os órgãos dos suínos são muito parecidos com os de seres humanos, com semelhanças em termos de pesos e medidas; o funcionamento dos órgãos também é bastante próximo ao dos humanos; os órgãos atingem o tamanho ideal para o transplante em menos tempo. Segundo Simone, a ciência já utiliza o porco na saúde humana, no uso de válvulas cardíacas em cirurgias e na extração de insulina do pâncreas suíno para tratar diabéticos, por exemplo. Além disso, a pesquisadora afirma que a pele do suíno também é usada em alguns casos de queimadura grave. Os macacos são uma alternativa? Em comparação aos porcos, os primatas são animais bem próximos dos seres humanos quando se trata do processo evolutivo. Entretanto, Luciano Brito explica que não há, atualmente, estudos que mostrem viabilidade para fazer o xenotransplante. "Os macacos compatíveis em termos de tamanho com os seres humanos são os africanos, são animais em risco de extinção, por norma. Os macacos brasileiros nem serviriam para isso, porque são pequenos. Os primatas reproduzem pouco e demoram nove meses para gerar um filhote. O suíno precisa de quase quatro meses para gerar vários e vários filhotes", explica. De acordo com Brito, também existem limitações éticas em relação na utilização dos órgãos de primatas, que tornam a escolha pelos porcos melhor aceita pela sociedade. Os macacos são animais totalmente silvestres e, segundo o pesquisador, estão em risco de extinção — principalmente os primatas africanos de maior tamanho. Os suínos, por sua vez, já são criados para o abate e alimentação. Validação da técnica da clonagem Brito explica que o Boreal serviu para validar a técnica de clonagem e que ainda não houve a clonagem de um animal geneticamente modificado. Com ele, os cientistas pretendem compreender a saúde do clone e se ele estará apto para ceder um órgão a um humano no futuro. Isso porque o animal clone, seja ele qual for, segundo o biólogo, tem uma saúde mais debilitada. "É comum ver algumas malformações congênitas em em animal clone. Então, a gente já tem que selecionar os clones que são saudáveis desde o nascimento", explicou. ➡️ A saúde debilitada do clone era uma questão para os pesquisadores, tanto que, inicialmente, a orientação era que os animais utilizados para o xenotransplante fossem os decorrentes do cruzamento entre os clonados, ou seja, os filhos dos clones. Entretanto, segundo Brito, o entendimento mudou após a comunidade cientifica identificar que utilização dos animais da linhagem do clone poderia diminuir a eficácia das alterações genéticas implementadas na clonagem. Após os cientistas compreenderem se os porcos de Piracicaba estão aptos para ceder um órgão a um humano, os suínos serão transferidos para um laboratório livre de patógenos em São Paulo para novas etapas da pesquisa — inclusive, o estudo clínico em seres humanos. "O estudo em humanos vai ser feito com novos suínos com as modificações genéticas. Esses animais de Piracicaba vão ser usados para estudo do animal clone: se o clone é mais debilitado, esse tipo de coisa, para entender mesmo como funciona o animal clone", explicou. Rejeição do órgão é desafio Mesmo nos transplantes tradicionais, de humano para humano, o sistema imunológico pode tratar o novo órgão como uma infecção e o atacar. Por isso são administrados imunossupressores, que são medicamentos que buscam evitar a rejeição. Essa incompatibilidade imunológica é o principal entrave no xenotransplante, segundo os pesquisadores. As experiências começaram na década de 1960, mas foram interrompidas porque os pacientes desenvolviam rejeição aguda. Para contornar a limitação, a ciência aprendeu a desativar três genes que estão ligados à rejeição do órgão. "Existe a distância evolutiva, é verdade, mas uma eventual incompatibilidade imunológica que é decorrente dessa distância evolutiva pode ser corrigida por meio da genética, tirando alguns genes do suíno responsáveis por produzir moléculas que causam essa incompatibilidade imunológica", diz Luciano. Retirando os genes responsáveis pela rejeição e inserindo genes humanos, os cientistas conseguiram melhorar a aceitabilidade do organismo ao órgão suíno. Entenda como funciona essa alteração: Três genes dos porcos, responsáveis por provocar rápida rejeição de órgãos em humanos, foram removidos. Essas alterações impedem que anticorpos humanos ataquem os tecidos do animal logo após o transplante. Outro gene do porco também foi eliminado para evitar que o tecido cardíaco cresça de forma exagerada após o transplante. Essa medida busca garantir que o órgão mantenha tamanho e funcionamento adequados dentro do corpo humano. Além disso, sete genes humanos ligados à aceitação imunológica foram inseridos no genoma suíno. A inclusão desses genes ajuda o organismo humano a reconhecer o coração do porco como compatível, diminuindo o risco de rejeição. Mesmo com avanço gerado pelas modificações genéticas, Brito aponta que existem mecanismos de rejeição do organismo ainda desconhecidos. "Existem algumas modificações genéticas que a gente conhece, que precisam ser feitas para que seja evitado um processo de rejeição imunológica desse órgão, e outras modificações genéticas que a gente não conhece, que a gente precisa entender melhor esses mecanismos", explicou. Além disso, Simone Raimundo explica que mesmo essas modificações não garantem que os órgãos durariam no organismo. "A gente não tem como te afirmar [se o órgão é definitivo], porque mesmo quem já teve sucesso em outros países, a gente ainda não tem esse estudo, mas a gente sabe que o suíno vive vários anos. [...] Vamos trabalhar para que seja cada vez um tempo de vida maior desses órgãos, mantendo a qualidade de vida e a satisfação de viver das pessoas", explicou. Boreal: como ocorreu a clonagem do porco? Primeiro porco clonado no Brasil nasceu em Piracicaba André Luís Rosa/EPTV 🐷 O Boreal nasceu saudável e com 2,5 kg no laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba, em 24 de março. Além disso, um ultrassom mostrou que já há outra porca grávida de pelo menos mais três filhotes clonados. A equipe levou seis anos para dominar a técnica de clonagem, que possibilita incorporar modificações para evitar rejeições imunológicas conhecidas e ajuda a entender mecanismos genéticos que a ciência ainda precisa desvendar. Em quatro dos seis anos, os pesquisadores se aperfeiçoaram no processo de geração de embriões. Ao longo desse tempo, foram cerca de 50 implantes em porcas receptoras até que se obtivesse o sucesso do primeiro clone suíno brasileiro. O porco Boreal não tem qualquer modificação genética. Ele foi apenas clonado. Ao contrário da reprodução natural, que une óvulo e espermatozoide, o clone é gerado a partir de uma célula somática, resultando em um porco geneticamente idêntico à célula do animal doado — veja o passo a passo abaixo: remoção do núcleo de uma célula germinativa feminina (óvulo); transferência do núcleo da célula somática do doador para esse óvulo; implante dos embriões clones em uma matriz receptora (porca). "A gente só vai conseguir a produção de órgãos que sirvam como doadores para humanos por meio do domínio da técnica clonagem, porque a gente precisa editar geneticamente as células que vão ser as doadoras de material genético para o clone", explicou Luciano. Com o domínio da clonagem de "porcos normais" estabelecido, o desafio agora é gerar os animais geneticamente modificados seguindo o mesmo padrão de sucesso. Esperança na fila de transplantes Esses resultados são fruto de pesquisas iniciadas na década de 1960 e comandadas pelo médico e professor Silvano Raia, que afirmou que existem muito mais receptores do que doadores no país. "Muitos pacientes morrem enquanto não tem um órgão disponível para eles”, lamenta. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem 48.708 pessoas na fila por transplante. Depois dos estudos clínicos em seres humanos, as conclusões da pesquisa serão avaliadas por órgãos reguladores, e só após essa etapa o xenotransplante poderá ser implementado em hospitais particulares e na rede pública do Brasil. De acordo com a zootecnista Simone, o intervalo entre a clonagem do primeiro porco e o aceite governamental pode ultrapassar sete anos. Mesmo sendo um cenário distante, a professora tem a esperança que, futuramente, o xenotransplante impeça que as pessoas tenham quadros de saúde agravados pela falta de um órgão humano compatível. "Eu espero num futuro próximo a gente ter órgãos para quando a pessoa começar um processo de decadência ou falência de um órgão, antes que ela chegue ao limite, para ela ter a possibilidade de usar o órgão de um suíno e depois decidir o que vai fazer. Que a gente não espera essa pessoa adoecer", contou Simone. VÍDEOS: Tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias da região na página do g1 Piracicaba.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2026/04/21/entenda-por-que-porcos-sao-a-especie-considerada-mais-viavel-para-transplante-em-humanos.ghtml


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